Nada por mudar
Como é que pode
alguém deixar de ser como se é?
Fugir do jeito de agir, da prosa,
dos escândalos íntimos e do próprio silêncio?
Deixar de espirrar da mesma maneira,
de foder igual, de se esquivar das próprias variações
que ao final exalam a mesma função, ainda que mude a topografia.
Como é que pode
se alguém souber, venha avisar.
O modo do ser parece mesmo encerrar as possibilidades
e isso é tão cruel.
Se alguém souber, venha avisar,
sei que sou psicólogo, estudo o comportamento, quase-doutor.
Mas nem de longe passo a entender; antes, é dúvida que se agiganta
perante o tempo empilhado de estudos e vagabundagens.
Mas como é mesmo que pode?
Aliás, pode?
Conheço gente de tribos e guerras distintas
todos querendo fugir daquilo que são.
Eu mesmo.
Ainda que a voz do Charly García diga em meu interior
"¡Ey, bancate ese defecto!"
Mas Charly, a questão não é apenas o defeito ou las cosas raras (cag-los!).
Como é que pode
tudo que é - ser assim - como está. E seguir até que não seja nem em memória.
Era preciso despertar e estar ao alcance o que nunca foi, o que não é.
Se alguém souber, venha avisar.
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Vídeo (Charly García - Bancate ese Defecto - 1984)
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