Notas do esquecido rascunho



E quando foi que versos outorgados em cartório
valeram mais que uma canção de fundo de quintal?
Quando foi que o bilhete premiado
se tornou mais relevante do que as notas distorcidas na garagem velha e inacabada?
Quando foi que a fumaça de meu incenso cedeu
aos tempos devastadores da modernidade?
Ou mesmo aos meus instintos?

As pequenas motivações rotineiras afogaram-se em troca de algo mais?
Quando? Eu não me lembro. Não me recordo
da primeira vez que o álcool me agradou. Não me recordo
quando ter outra sombra na luz foi tão forte.
Não lembro o dia em que comecei a sentir esse frio.
Esse receio do ônibus atrasar vinte minutos.
Esses atrasos, há um tempo que não lembro, eram sinônimo de quatro músicas a mais,
de prazer.

Quando foi que minhas anotações tomaram o poder e
minhas memórias foram despejadas no tribunal do papel?
Agenda? Amanhã? Planejamentos? Onde estive hoje?



E eis esse eu, relendo rascunho de um ano atrás,
e terminando hoje palavras marinadas

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